Matéria no jornal da USP

USP ensina empreendedor a competir

Correa e Milena, com sua máquina: hoje, há mais de 160 delas espalhadas pelo país.

Flávio Corrêa e Milena Rodrigues, com sua máquina: hoje, há mais de 160 delas espalhadas pelo país.

                               Matéria por Karina Lignelli

Tem empresa com 12 anos de mercado que melhorou processos produtivos e ampliou o faturamento, reduzindo custos de matéria-prima e de mão-de-obra, automatizando-os de forma  eficiente  – e sem cortar pessoal. Tem também a lançadora de uma ideia inovadora – uma máquina removedora de chicletes – e conquistou grandes clientes em várias áreas, de shoppings centers a empresas de transporte, passando por parques temáticos e até a Rede Globo.

Empreendedores como esses, que aprenderam a ganhar competitividade e ampliar seu espaço no mercado, são encontrados entre os 450 participantes do “Programa de Capacitação em Empreendedorismo e de Gerenciamento e Execução de Projetos de Inovação”. Realizado pela Agência USP de Inovação em parceria com a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), esse grupo concluirá a primeira edição do programa neste mês.

O primeiro caso é da fabricante de autopeças Autometal, do ABC Paulista, que produz peças plásticas para montadoras. A empresa desenvolvia anteriormente processos internos de melhoria contínua, mas faltavam-lhe mais conhecimentos em inovação, conta o gerente industrial Nelson Sete. “Além de (o curso) abrir janelas na parte técnica, também nos mostra que há incentivos fiscais do governo para quem inova. Antes bancávamos 100% de tudo o que desenvolvíamos, por puro desconhecimento. Hoje, o dinheiro dessa restituição vai para novos projetos inovadores. É um ‘looping’ que nos deixa em condições de competir no mercado”, comemora.

A empresa, que já põe em prática o que aprendeu, encerrará o programa com oito projetos em andamento, segundo Sete, todos para otimizar processos de produção e reduzir custos. Como exemplos, o gerente aponta o fim de operações que não agregam, como usar um profissional para “apertar parafusos” oito horas por dia, ou ter dois turnos na linha de produção de calotas.

“Para automatizar os processos, qualificamos essas pessoas para tomar conta dos dispositivos. Sem demitir ninguém; apenas melhoramos processos e  qualificamos operadores para serem técnicos em mecatrônica. Ou para trabalhar no laboratório, como projetistas, em suprimentos, no RH”, afirma, lembrando que, com tudo isso, se há doze anos a empresa faturava R$ 1,98 milhão, hoje fatura R$ 6 milhões – e com o mesmo número de empregados.

Outras mudanças positivas para a Autometal foram a criação de uma incubadora de engenheiros em pesquisa e desenvolvimento (P&D), e os comitês internos que incentivam a participação de funcionários no processo de inovação por meio de opiniões e sugestões. “O mercado é agressivo, e essas medidas geram ganhos sem a necessidade de investir. Inovação é isso: retorno. Se não der, então não é”, acredita Sete.

Sem chiclete –  A ideia de criar uma máquina de limpeza removedora da sujeira considerada difícil de lidar – a goma de mascar – era  boa, atendia a uma necessidade do mercado e, o melhor, como se diz no jargão das startups, se mostrou “escalável” e “monetizável”. Mas tudo aconteceu tão rápido que faltava um plano de negócios abrangente, um pós-vendas mais eficiente e a implantação de melhorias no equipamento. Essa carência levou ao programa da USP os empreendedores responsáveis pela Remover (pronuncia-se Remôver), Milena Rodrigues e Flávio Augusto Corrêa.

Criada pelo engenheiro Corrêa e um ex-sócio, técnico em eletrônica, a Remover foi apresentada pela primeira vez há cerca de três anos, em uma feira de higiene e limpeza, explica Milena, responsável pelas áreas administrativa e de marketing. Ela conta que o desafio era entrar no mercado com a máquina limpadora (que funciona com um sistema de limpeza a vapor alimentado com detergente biodegradável e remove chicletes em até cinco segundos). Depois do evento, 40 máquinas foram vendidas.

“Começamos a trabalhar sem muito planejamento, constatamos que as necessidades do mercado mudam a cada dia, e que é preciso fazer testes  sempre – assim como investir muito em planos de marketing para ajudar vender, já que o  produto exige demonstração.

Por telefone, ninguém acredita!”, diverte-se Milena, lembrando que o programa de inovação ensinou a Remover a não cair na fase de “deixar como está”.  Além do network, os empreendedores aprenderam a montar planos de inovação e a investir em tecnologias para desenvolver outras funcionalidades, já que a máquina pode ser ajustada para outros usos. Pode, por exemplo  limpar pedras de piscina – e ao fazer esse ajuste a empresa ganhou um grande cliente, o  parque aquático Wet ‘n’ Wild.

Hoje, com mais de 160 máquinas espalhadas pelo País, a Remover continua inquieta, correndo atrás da inovação. “Já temos projetos para obter mais vantagens no uso de água durante o processo, além de desenvolver outras formas de limpeza, como a remoção de adesivos antigos. Estamos abrindo cada vez mais o leque – inclusive para investidores”, empolga-se Milena.

Eficiência – A Agência USP de Inovação, que aposta em cursos e programas para incentivar os processos de inovação e na formação de cultura inovadora dentro das empresas, tem como objetivo abrir aos empreendedores o conhecimento da universidade, explica o coordenador, professor e doutor Vanderlei Salvador Bagnato.

“Seja para trazer ideias ou vir com demandas para a USP, a meta é mostrar aos empreendedores que nos procuram como a inovação pode ser mais eficiente, melhorar a competitividade e preparar a atuação de suas empresas no mercado internacional. Hoje, quem não inova, fica para trás”, afirma.

Nesses cursos – semipresenciais, com 240 horas de duração – para empresários e gestores de empresas não se ensina que “inovação é importante” –  segundo Bagnato, isso o empreendedor já sabe. No programa, aprende-se a  conduzir, avaliar e gerenciar projetos de inovação tecnológica – algo ainda não rotineiro nas empresas brasileiras.

“É sair de uma ideia e chegar a um produto e, no meio do processo, saber se é preciso abortar ou acelerar esse projeto para ter sucesso”, explica Bagnato, reforçando que uma boa ideia só não basta. “Esse é o principal erro. É preciso obedecer regras, normas técnicas, e ter em mente pré-requisitos essenciais, como o custo. A meta é trazer o participante ao curso e fazê-lo terminar preparando um projeto  realmente inovador para sua empresa”.

Segundo o professor Bagnato, a próxima turma do curso está com inscrições abertas para empresas de todos os portes, e deve iniciar em setembro. Mais informações sobre aulas e valores podem ser consultadas no www.inovacao.usp.br.

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